Olhares Podcast | Identidade e o processo de estar no mundo
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Identidade e o processo de estar no mundo

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Na época da graduação, me instigava muito a questão da identidade social. Não foi à toa que esse foi o tema de fundo da minha monografia. Eu tentava entender por que as pessoas adquiriam novas identidades e se sentiam frustradas; entender por que é tão difícil, quando assumida uma identidade, conseguir encará-la verdadeiramente; entender por que estigmas muitas vezes são eternos e marcam verdadeiramente o trajeto social de uma pessoa.

Engraçado dizer, mas à época, a primeira questão levantada foi a respeito do fenômeno de adaptação social. No trabalho, mencionei a respeito dos idosos, mas conhecendo cada dia mais o empoderamento feminino, consigo perfeitamente ajustar o trabalho anteriormente realizado, com questões práticas deste comportamento mulheril que atravessa décadas de lutas e conquistas.

Então chego ao dilema que há também uma questão de identidade de gênero, da pessoa para com o mundo e do mundo para com ela. Émile Durkheim disse uma vez que “fatos sociais devem ser tratados como coisas” e essas coisas se opõem a ideia de tudo e para com tudo que conhecemos a partir do exterior e partir do interior. Mas, o que isso significa?

“ É coisa todo o objeto do conhecimento que a inteligência não penetra de maneira natural, tudo aquilo de que não podemos formular uma noção adequada por simples processo de análise mental, tudo o que o espírito não pode chegar a compreender senão sob condição de sair de si mesmo, por meio da observação e da experimentação, passando progressivamente dos caracteres mais exteriores e mais imediatamente acessíveis para os menos visíveis e mais profundos. Tratar fatos de uma certa ordem como coisas não é, pois, classificá-los nesta ou naquela categoria do real; é observar, com relação a eles, certa atitude mental.”

Então, Aline, o que Durkheim tem a ver com o feminismo, com o machismo ou com empoderamento?

Se o processo de construção da identidade é um processo que parte de fora pra dentro e também de dentro pra fora, o processo de ser, estar e viver no mundo como mulher veste como uma luva a teoria do sociólogo.

Até mesmo porque o processo de identidade parte da construção social que cada pessoa tem para consigo e para com o mundo. E o processo de construção parte, por sua vez, da identificação de pontos que herdamos de nossos anteriores, de nossos pares e de nossos heróis ou inimigos.

Espera.

Quer dizer que o que somos é uma construção social? Óbvio.

Quer dizer que tudo que aprendemos é fator social? Óbvio.

Quer dizer que o machismo, sendo uma construção social, molda nosso caráter? Com certeza, pela própria referência — apenas constatando, importante dizer.

Significa que, estando o machismo encrustado na sociedade, estamos destinados a reproduzi-lo? Sim.

Inclusive, foi a entrevista do Mano Brown que me abriu a cabeça para isso. Quando ele foi questionado se era machista, respondeu que sim, porque a sociedade é assim.

E aonde quero chegar com tudo isso?

Simples. Se a identidade é uma construção de fatores, cabe a nós escolher as melhores referências para alicerçá-la, de modo que saibamos apontar fontes que verdadeiramente moldam e outras que apenas deformam; ou, ainda, cabe a nós marcar, recortar, talhar, contornar, e tudo mais que for possível, de modo a conceber uma obra de arte nessa junção de coisas, que nem sempre sempre concretiza para representar algo único, mas aceitável a outros olhares.

Jogar a culpa na sociedade ainda pode ser o caminho mais fácil, mas já tentou construir sua própria identidade partindo de si para o mundo? É libertador.

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