Olhares Podcast | Não é só uma “brusinha”
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Não é só uma “brusinha”

“É muito legal pensar que uma coisa tão superficial como a moda pode ter o poder de libertar alguém.”, disse Ronaldo Fraga para a Elle, após seu desfile no Theatro São Pedro com casting composto 100% por mulheres trans, realizado em outubro de 2016.

Me incomodou essa certa falsa modéstia do designer ao colocar a moda como algo superficial, justo ele que é conhecido por inserir temas atuais e políticos em seus desfiles, como os refugiados e o Rio São Francisco, e homenagear mestres da cultura brasileira, como Cândido Portinari, Athos Bulcão e Guimarães Rosa – e decidir fazer esse desfile disruptivo em um local tradicional de São Paulo. Ele sabe bem que a moda não é superficial, mas sim uma linguagem universal e influente que caracteriza culturas, regiões e pessoas, que comunica valores, ideias e identidades, bem como os transforma.

Mesmo que inconscientemente, o que e como consumimos no mercado da moda não está desvinculado do zeitgeist. Isso se torna mais perceptível a cada propaganda que nos alcança, seja das fast fashions ou grandes grifes: todas estão falando em representatividade, em ser você mesmo, em não se conformar com padrões de beleza – a proposta é, na verdade, rompê-los. Em estabelecer uma moda sem gênero, cor, pesos e medidas pré-definidas.

O primeiro movimento que me emocionou de verdade foi o lançamento da LAB, coleção do rapper Emicida na São Paulo Fashion Week de 2016: quase somente modelos negros, entre eles homens e mulheres, gordos e magros, altos e baixos; na sua trilha sonora, cantada ao vivo no desfile, poderosas palavras de ordem e afirmação da cultura afro, da “quebrada”, as maravilhosas “hoje é o dia que a favela invadiu a fashion week” e “fiz com a passarela o que eles fez com a cadeia e com a favela, enchi de preto”. Me arrepio só de lembrar.

Mais recentemente, algumas campanhas de maior alcance também me chamaram a atenção. A Avon, conhecida marca de cosméticos, fez uma série de propagandas de suas maquiagens com os mais recentes ícones da desconstrução de gênero, como Liniker, Jéssica (do Canal das Bee), as empoderadoras e feministas Karol Conká, Mc Carol, LAY, e pessoas gordas, negras, down, homossexuais; enfim, trouxe representatividade e finalmente conversou com um grande grupo consumidor de seus produtos (além de sair do clichê) – e passou na TV, povoou a internet, foi bonito de se ver. A Youcom lançou a campanha #sigavocêmesmo, também com a Liniker e a Cris Paladino falando sobre as infinitas possibilidades de ser o que se é, sem a necessidade de se colocar numa caixinha rotulada. Outra marca não tão popular mas que arrasou na propaganda foi a Joulik, em sua campanha de Inverno 2017, com a participação de Vanessa Rozan, Julia Petit, Anna Boogie, Thiago Pethit, Christopher Alexander Miniero Casza, Luanda Vieira e Lais Matuck, trazendo muito brilho, glitter e paetê pra todo mundo. Entre as fast fashions mais conhecidas do consumidor brasileiro, a Renner e C&A também aderiram ao movimento de inclusão e representatividade, colocando homens e mulheres mais velhos, várias etnias, pesos, alturas e estilos em suas campanhas.

Madeline Stuart, modelo com síndrome de Down que desafiou as normas da indústria da moda com sua primeira aparição nas passarelas em 2015, lançou sua própria marca “21 Reasons Why” na New York Fashion Week 2017.

 

Todas essas pessoas, estilos e ideias sendo finalmente expostas e reconhecidas como realidade e possibilidade de ser incorporadas no seu dia a dia – seja por meio do consumo consciente deste discurso ou não – tem um significado muito poderoso, quando ondas de conservadorismo e intolerância vêm cada vez mais fortes. Ostentar a diversidade não é apenas o novo hype para alimentar o mercado da moda e beleza, mas é também uma resistência. Entender quem você é, quais os seus valores e como o seu consumo e estilo comunicam isso é reagir a esse sistema que te compele a se enquadrar em padrões utópicos. Isso faz parte de um processo de mudança cultural, social e política do qual não somos meros consumidores passivos; somos agentes, que têm responsabilidade sobre a ideologia que endossa ao comprar de determinada marca ou empresa. Há muito tempo o que escolhemos vestir não é uma decisão puramente estética.