Olhares Podcast | Arlequina e Coringa – Quando a romantização do relacionamento abusivo pode reforçar a perpetuação da violência
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HQ Arlequina e Coringa

Arlequina e Coringa – Quando a romantização do relacionamento abusivo pode reforçar a perpetuação da violência

Não é fácil ver na literatura, HQ, cinema e séries o abuso mental e físico contra a mulher e não sentir asco. Só quem, como eu, que passou por isso e saiu, olha para trás e vê o quanto foram doloridos a situação e o período. Eu passei a borracha nisso, mas quando vejo sendo exaltado como lindo, romântico e permitido na sociedade, eu fico indignada que mais e mais mulheres que passam por isso vão ouvir o que ouvi, que é para aguentar, já que eu escolhi esse homem. Não, está errado!

Tenho que confessar que precisei de um certo cuidado para escrever esse texto, para que não soasse piegas ou um “lá vem a louca feminazi, bigoduda, querendo passar lição de moral”. Por isso, dei a minha opinião geral sobre a mulher, o quanto se é tratada como objeto pela indústria. Devemos combater isso, sem dúvidas, assim como incentivar a produção de outros conteúdos realizados exclusivamente por mulheres, mas quando adentramos na questão de personagens estamos invadindo um espaço muito particular, cujas pretensões e detalhes como a sexualidade, por exemplo, existem para compor e não destruir ou inferiorizar.

A minha indignação começou quando vi a postagem de uma página no Facebook falando sobre a Arlequina, que “ela tem ensino superior e caiu nessa, e você que não tem nem o fundamental está querendo o quê?” Está querendo que não seja abusada pelo companheiro, óbvio!

Isso passa pelo livro “50 Tons de Cinza”, que objetifica, toma posse e ela não consegue nada sem ele. Acontece no livro Lolita, em que o personagem tem tara e dá corda para uma menina – e que foi inspiração da minissérie “Presença de Anita”, da Rede Globo. Entra também na série “Grey’s Anatomy”, onde um personagem bonitão fica menosprezando a inteligência e a boa profissional que sua esposa é em prol do seu ego inflado. Eu ouvia dizer na série: “você é o sol sempre, porque você é o sol da sua vida e mais ninguém”, e precisou o sujeito morrer para ela entender e até  ser um personagem melhor.

Voltando à Arlequina. A relação dela com o Coringa é um exemplo que relacionamento abusivo existe, e ocorre quando uma das pessoas tenta ter o poder sob a outra. A pessoa abusiva busca controlar as ações do parceiro, tem um comportamento possessivo e machuca a outra no processo, podendo ser psicológica ou fisicamente. Mas mesmo com todos esses elementos na história dos dois personagens, ainda há muita romantização do casal. Tanto fãs quanto pessoas dentro da DC acreditam que todas essas coisas deixam o relacionamento mais “interessante”, falhando em perceber o abuso da situação e como é errado colocar os dois como algum tipo de casal modelo dos nerds.

Mulheres enfrentam companheiros abusivos – e você pode dizer que isso é “só um quadrinho”, mas há mulheres reais sofrendo em relacionamentos desse tipo, não dá para naturalizar essas situações em qualquer forma de entretenimento. Abuso não é “fofo”, não é certo e não dá para passarmos a mensagem de que esse é um relacionamento aceitável. Por isso não passe adiante, não é bonito, não é romântico.

Sobre a autora:

Fabiana Murray é uma obra faraônica em construção. Feminista, Host do Podcast Alias, e do Pílulas de Beleza, Aspirante a escritora, cinéfila, seriaholic, humanas com miçanga, Netflix sempre aberto nas séries, fã das mulheres mais empoderadas da telinha e das telonas e claro, sempre no mundo da lua.