Olhares Podcast | Entrevista: Mazé Morais, Secretária de Mulheres Trabalhadoras da CONTAG
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Foto de Mazé Morais

Entrevista: Mazé Morais, Secretária de Mulheres Trabalhadoras da CONTAG

Agosto é um mês emblemático para movimentos sociais de direitos das mulheres, é quando ocorre o aniversário da Lei Maria da Penha, comemorado no dia 7. Especialmente para as mulheres trabalhadoras rurais, a referência se volta para o dia 12, quando é comemorado o Dia Nacional de Luta contra a Violência no Campo. Essa data acontece em homenagem ao dia do falecimento de Margarida Alves, ocorrido em 1983. Margarida era uma importante sindicalista e símbolo da luta feminina no campo a partir da década de 1970. Mulher forte, trabalhadora rural, que lutava pelos direitos de trabalhadores e trabalhadoras do campo.
O protagonismo da mulher na luta de direitos no campo ocorre desde 1960, quando iniciaram sua busca pelo reconhecimento legal como trabalhadoras rurais dentro do movimento agrícola.
Inicialmente, essas mulheres buscavam a visibilidade como trabalhadoras, salários justos e condições dignas de trabalho. No decorrer dos anos, a busca passou a abranger a participação política, o fortalecimento de organizações sindicais, recursos para o próprio desenvolvimento do trabalho rural, desenvolvimento sustentável e solidário e titulação de suas próprias terras.
Hoje estas mulheres lutam pela formação política, qualificação profissional, contra a pobreza, pela autonomia econômica, igualdade, e principalmente contra o sexismo e a violência contra as mulheres. Muitos direitos já foram alcançados, porém, ainda há uma grande dificuldade para exercê-los.

É melhor morrer na luta, do que morrer de fome”  (Margarida Alves)

Entrevistamos Mazé Morais, Ex-Secretária de Jovens Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais e atual Secretária de Mulheres Trabalhadoras da CONTAG (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura), que nos contou um pouco a respeito da sua trajetória e suas expectativas para o alcance destes direitos.

Olhares – Como mulher, agricultora, ex-secretária de jovens e atual secretária de mulheres trabalhadoras rurais da CONTAG, como você visualiza sua trajetória em busca por mais dignidade nas mulheres no campo? Qual é a sua contribuição na luta contra a violência?
Mazé – Como mulher, eu busco dar visibilidade, no sentido de empoderar as mulheres para diminuir essa violência no campo, o que está muito visível. A CONTAG vem trabalhando, a partir da pauta da Marcha das Margaridas, fazendo materiais para além da própria pauta da marcha, materiais pequenos para informar e empoderar essas mulheres para que elas possam conhecer a respeito da violência que elas sofrem.
O que nós, como liderança de movimento sindical devemos fazer, é informar, incentivar essas mulheres a denunciar, porque muitas vezes essas mulheres não têm nem coragem para fazê-lo, porque é papel nosso encorajar essas mulheres à denúncia dessas violências que vêm acontecendo. Nós também estamos implementando a terapia comunitária, na qual nós elegemos um tema e um espaço seguro para que elas possam se abrir, porque mesmo as dirigentes têm muita dificuldade de se abrir e exteriorizar a violência que elas sofrem, seja em casa, seja dentro do próprio movimento, para que todas possamos nos ajudar e ajudar as outras companheiras.

Olhares – Você começou como uma jovem líder. Na sua opinião, qual a importância do protagonismo jovem no alcance de direitos sociais?
Mazé – A participação dos jovens é fundamental, ocupar esses espaços fortalece mais a juventude, as pautas específicas passam a aparecer mais. Muitas vezes a especificidade da juventude é esquecida, e é preciso a participação deles e delas para ocupar espaços na política, nos movimentos, aonde quer que seja. Quando se fala de jovens, esquecemos que muitas vezes eles são os últimos da fila, ainda mais quando são jovens, rurais, nordestinos e negros. Nós rurais temos uma dificuldade muito grande em ter acesso às Políticas Públicas, o que chega para nós é muito escasso e cheio de burocracia.
A maior dificuldade para o jovem ter acesso à educação, a própria cultura, ao esporte, à saúde, ao primeiro trabalho. E a gente que mora no campo, que tenta fortalecer a agricultura familiar para permanecer no campo, acaba perdendo esses jovens pela falta de acesso deles a essas políticas, principalmente às que gerem renda.

Olhares – Qual a importância das cotas para jovens?
Mazé – Eu, por exemplo, entrei no movimento sindical por essa cota de jovens. Muitas mulheres entram no movimento jovens, até mesmo para preencher duplamente as cotas. Uma mulher jovem preenche duas cotas, a de mulheres e a de jovens, e o mesmo acontece com as idosas. A cota inclui os(as) excluídos(as). Hoje, por exemplo, estou aqui por causa dessas cotas, mas como jovem, eu me encontrei no movimento, porque o próprio movimento precisa de renovação, de ideias diferentes. É fundamental que venha essa renovação sempre.

Olhares – Ainda sobre cotas, recentemente a CONTAG alcançou a paridade, saindo dos 30% para 50% de cargos de diretoria reservados às mulheres. Nesse sentido, quais as maiores barreiras enfrentadas por essas mulheres para alcançar os cargos?
Mazé – Nosso movimento sindical tem 53 anos de história, eu digo que nós já conseguimos avançar muito nesse sentido, a partir das cotas de 30% até chegar aos 50%. Mas a gente ainda tem um desafio muito grande. Apesar de termos conseguido 50% de homens e 50% de mulheres na direção da CONTAG, não é só número que queremos, queremos igualdade também de participação política e de espaço, o que muitas vezes ainda não acontece. Uma coisa que alcançamos recentemente foi a alternância de cargo, porque as mulheres estão dentro dos 50%, mas estão nos cargos menos estratégicos e de menor visibilidade. Ainda há muita dificuldade dessas mulheres alcançarem a Presidência e a Vice-Presidência, e as secretarias executivas e fiscais, que movimentam mais recurso, por exemplo.

Olhares – O que impede a participação política dessas mulheres? Você acha mais fácil conquistar pequenos espaços para, posteriormente, alcançar os grandes?
Mazé – Aqui tentamos sempre dialogar primeiro nos pequenos espaços, e é assim que essas mulheres vão ocupando os espaços. Essas mulheres estão sempre buscando formação profissional. A CONTAG faz muitos cursos de liderança sindical, tenta trazer o conceito político e a importância das mulheres na participação política, e é assim que hoje temos Presidenta e Secretárias nas Federações, e isso tem ajudado as mulheres; quando elas voltam à sua base, elas chegam com novos conhecimentos e mais empoderadas.
Ocorre que, quando voltam aos espaços de origem, ainda há uma resistência muito grande do próprio movimento em aceitar a ocupação das mulheres nos espaços de diretoria.
Inclusive, o próprio movimento da Marcha das Margaridas trabalha com isso, é um importante espaço de formação. O movimento não é só trazer as mulheres para a marcha de massa. Trazer as mulheres para a marcha de massa é só um dos pontos. A mobilização começa primeiro nos assentamentos, acampamentos, no próprio município, passando pro estado e finalizando na Marcha, que tem contexto nacional. Nós trabalhamos vários eixos, a violência contra a mulher, o racismo, a ecologia, acesso à terra, ao crédito, cooperativas, essas coisas. Tudo é processo de formação para essas mulheres, a partir da Marcha.

Olhares – Você acredita que um dia conseguiremos alcançar a paridade no Congresso Nacional?
Mazé – Eu penso que já avançamos bastante no Brasil quanto à formação dessas mulheres. A gente já chegou em alguns partidos, apesar que por mais que a lei eleitoral preveja 30% de participação política feminina, esses espaços estão sendo ocupados apenas para cumprir cota em alguns espaços, como “mulheres laranja”, e a reforma política que está vindo não fala nada sobre a participação política das mulheres. É algo que temos que ficar atentas.
Tem uma pesquisa que mostra que as mulheres que foram candidatas nos municípios, que tinham participação sindical na CONTAG, que tinham participado dos cursos que promovemos, das que foram candidatas ao cargo de Vereadoras, um número muito pequeno que não foi eleito, mas ainda sim tiveram um número significativo de votos.
O processo de conquista política pode começar em espaços menores, ganhar visibilidade para, depois, chegar ao Congresso Nacional. É um processo bem lento, mas ele um dia pode acontecer sim. É um trabalho que deve ser começado na base, e apesar de lento e árduo, ele tem que ser incentivado.

Olhares – Você consegue dizer por que o protagonismo das mulheres é tão ofuscado pela sociedade, pela política e pela mídia?
Mazé – Primeiro, nós mulheres devemos parar de tentar ofuscar a fala da outra. Naturalmente, a fala da mulher tem menos força que a de um homem, isso é da cultura. As conquistas das mulheres são ofuscadas sim, porque os homens se incomodam de demonstrar que estão perdendo espaço de poder, pela necessidade de dividir com as mulheres. O objetivo das mulheres não é tomar o poder dos homens, mas essa divisão. Estarmos em pé de igualdade, de poder ser reconhecida, valorizada, e ajudar na construção de espaços para outras mulheres é algo que buscamos. Não queremos ser reconhecidas como melhores que os homens, apenas queremos demonstrar que temos capacidade de ocupar os mesmos espaços políticos para construir políticas para as mulheres também.

Olhares – Reafirmar o protagonismo e dar visibilidade à contribuição econômica, política e social das mulheres do campo, da floresta e das águas na construção de um novo processo de desenvolvimento rural voltado para a sustentabilidade da vida humana e do meio ambiente é um dos objetivos da Marcha das Margaridas. Fale um pouco sobre a marcha e como as mulheres camponesas podem ser fontes de inspiração para outras mulheres em outros espaços de luta.
Mazé – A gente pode ser inspiração a partir da nossa própria história de vida, a partir da nossa coragem, nossa convicção de que vamos conseguir mesmo diante dessas dificuldades e desafios. As mulheres quando querem, elas podem, fazem, estudam e mobilizam outras mulheres. O que me incentiva e o que eu acredito que pode incentivar as outras companheiras é a questão da resistência e coragem a frente de toda essa diversidade, desse cenário, e a gente está lá na frente, acreditando que é possível e que a gente pode mudar, conseguir políticas para ajudar as outras mulheres, e também toda a comunidade rural.