Olhares Podcast | Assisti ao filme To the Bone e não foi fácil
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imagem do filme To the Bone

Assisti ao filme To the Bone e não foi fácil

No meio dessa semana, em mais uma noite na companhia da insônia, decidi abrir a Netflix e procurar algo para ocupar as horas. Uma breve olhada na minha lista e já estava escolhido: To The Bone, ou O Mínimo Para Viver. Produção desse ano da própria Netflix, o filme estrelado por Lily Collins retrata o drama da anorexia vivido por Ellen, uma jovem de 20 anos, inteligente e talentosa. Depois de várias “intervenções” familiares sem sucesso, decidem por interná-la para um tratamento atípico promovido pelo Dr. William Beckham, representado por Keanu Reeves.
Esse texto não é uma crítica ao filme, mas sim à polêmica que suscitou por apresentar corpos magérrimos, ossos proeminentes, os métodos e o terror diante do ato de comer. Me exaspera cada vez mais perceber o quanto as pessoas querem manter longe delas o que lhes causa incômodo, a dor alheia, o sofrimento, a realidade assustadora que se estampa ao nosso redor e alimenta corpos e mentes cada vez mais doentes.

Leia também sobre moda e representatividade em “Não é só uma ‘Brusinha”

 

Por todos os lados há uma voz dizendo como devemos nos vestir, nos comportar, nos aceitar, a que lugares devemos ir, como e o que devemos comer, fazer exercícios, nos divertir, trabalhar, andar nas ruas, viver, existir. Ela está em cada outdoor, em cada capa de revista, em qualquer página que se abra na internet, nos filmes, nas novelas, nas músicas, nas vitrines, nas propagandas óbvias e nas nem tanto assim. Essa opressão contínua é enlouquecedora, e quanto mais fingimos que ela não nos adoece, mais doentes ficamos.
Nunca houve tantas campanhas de empoderamento feminino e de aceitação da própria imagem como atualmente, por parte de diversos veículos de comunicação. No entanto, eu sinto que até mesmo o que mostram como fora do padrão, para nos gerar alguma identificação, está em um padrão. É um padrão de um corpo gordo, mas curvilíneo e proporcional em suas dobras. Um cabelo afro, mas impecável em seus cachos. Uma pele negra, mas reluzente e sem um fucking poro, marca de expressão ou manchinha da espinha que aquela moça cutucou (todo mundo cutuca, pelo amor das deusas).
As pessoas representadas continuam sendo pessoas irreais, construídas, que não representarão um ser humano normal – que não come salada todo dia, não malha todo dia, não tem grana para tratamentos estéticos e cabeleireiro toda semana, que anda de ônibus, que se estressa no trânsito, que passa raiva no trabalho mas não pode largar que as contas continuam chegando, que passou noites em claro estudando, que não vai passar maquiagem nas olheiras porque tá sem saco pra isso, que vai comprar uma calça e ela serve na cintura mas não cabe sua bunda e te faz pensar que precisa emagrecer – embora esteja saudável e com o IMC perfeitamente compatível. São representações que te condicionam a perseguir uma imagem e estilo de vida inviáveis.
Eu estou doente. Minha mente e meu corpo não suportam mais serem forçados a se encaixar em algum lugar que não cabem. E falo literalmente, mesmo. Este filme, de nome muito pertinente, realmente vai to the bone. São muitas, MUITAS pessoas no mesmo patamar da Ellen, ou “apenas” tomando um termogênico aqui, um chá diurético ali, regulando o que come não para ser saudável, mas para não engordar, alimentando um ciclo de ansiedade, dismorfia corporal, insatisfação contínua consigo mesmos e infelicidade sobre quem se é. E pior: não reconhecendo isso.

 

Louise Arruda, co-host e co-fundadora do Olhares Podcast.

  • Daiana Almeida

    Assisti anteontem esse filme. Realmente chocante, mas necessário. Me lembrou um pouco Réquiem para um Sonho. E perfeita a análise de vocês. É um trabalhão tentar fugir dos padrões. Há pouco tempo parei de pintar meus cabelos brancos, e (droga!) descobri que cabelos brancos estao na moda, mas não,não são naturais e com vontade própria como os meus. São pintados de cinza, matizados, sei lá o que mais. Só nos resta ligar o botao do foda-se.

    • Esse filme mexe muito com nossos conceitos de padrão. Obrigada pelo comentário!

    • Esse filme mexe muito com nossos conceitos de padrão. Obrigada pelo comentário!