Olhares Podcast | Entrevista: Jarid Arraes, cordelista e escritora.
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Foto de Jarid Arraes

Entrevista: Jarid Arraes, cordelista e escritora.

Quando falamos de escrita, falamos de linguagem. Aqui no Olhares, sempre gostamos de indicar boas fontes para ajudar nossos ouvintes a melhorar o discurso, abrir a cabeça, desconstruir falácias e construir novos pontos de vista.

Ouça nosso episódio sobre Feminismo e Linguagem

Há aproximadamente um ano, conheci o trabalho da cordelista Jarid Arraes, autora de 60 cordéis envolvendo temáticas importantes como representatividade, violência, desconstrução de papéis de gênero, lendas africanas, temática LGBT e questões raciais. Jarid me mostrou um novo olhar a respeito da temática cultural e racial, e o quanto heroínas negras são invisibilizadas pela história. Poucos sabem da importância delas para a construção da nossa cultura, da nossa agricultura, da nossa religião e da sociedade brasileira como um todo.

 

“As tarefas femininas

De limpar e cozinhar

Não eram do seu feitio

Que partia pra caçar

E além da plantação

Também sabia lutar”

(Cordel – Dandara dos Palmares)

 

Uma nota especial vai aos cordéis biográficos, que relatam as jornadas de mulheres fortes, histórias até então desconhecidas. Falar dessas heroínas é falar da própria mulher brasileira, que diariamente luta, é resiliente e perseverante. Entramos em contato com a autora, que prontamente compartilhou conosco um pouco de sua trajetória e a importância da mobilização para erguer as novas escritoras brasileiras na construção do jornalismo e da literatura brasileira contemporânea.

 

Olhares – Por que é tão importante escrever para mulheres?

Jarid – Bom, eu escrevo para todas as pessoas. Pelo menos essa é minha intenção, e sei que muitas outras escritoras também desejam que suas obras sejam lidas por todos, independente de gênero, cor, etc. O problema é que o mercado insiste em nos enfiar em caixinhas limitadas e limitadoras, insiste que existe a tal “literatura feminina” e os próprios leitores também encaram as coisas desse modo. Ainda associam a imagem do autor branco de meia idade como a imagem de credibilidade literária. Por isso a gente precisa de iniciativa como o Leia Mulheres, o KDMulheres, o Clube da Escrita Para Mulheres, o Slam das Minas, porque aí a gente tenta acordar as pessoas e fazer com que elas enxerguem o machismo que cobre “o mundo da literatura”. Já sobre a importância de mulheres escreverem, penso que tem algo de muito errado com o fato de que mulheres enviam menos originais para editoras e são menos publicadas. Não é que mulheres escrevam menos, o problema é que o mercado é todo fechado para quem já não tem contatos, uma grande rede, para as mulheres que não são brancas e não têm sobrenomes de origem europeia. É complicado. Mas a gente escreve primeiro porque sabe, segundo porque pode, independente do que o machismo e o racismo insistam em impor. A gente escreve porque nossa literatura é relevante para o mundo, para a sociedade; é literatura que produz identificação humana, transformação social. É importante que a gente escreva e que a gente leia o que a outra está escrevendo, que a gente se apoie acima de tudo. Porque aí a gente constrói uma lógica diferente e melhor.

 

Olhares – Como a cultura nordestina contribuiu para o seu trabalho?

Jarid – Existem muitas culturas nordestinas, claro. Eu sou do Cariri, uma região no interior do Ceará, e minha ligação cultural está muito mais evidente com o cordel e a xilogravura. Me identifico pouco com o “modo de vida” do interior, com os valores sociais que ainda persistem, mas tenho muito amor por tudo que tenho em mim e carrega influências de lá, sobretudo quando o assunto é literatura. Acho que isso é muito visível na minha poesia, não só no cordel, porque tenho a tendência de escrever melodicamente, como faço quando escrevo literatura de cordel. Às vezes nem noto, não é proposital, mas quando vejo o resultado final, lá está. Acho isso bonito, sinto orgulho dessa origem e do que faço para preservá-la.

 

Olhares – Quais coletivos você participou e quais ainda participa? Você acredita que os coletivos são importantes para dar voz às mulheres de modo geral?

Jarid – No Cariri, fundei o FEMICA (Feministas do Cariri) e participei do Pretas Simoa (Grupo de Mulheres Negras do Cariri). Em São Paulo, fui diretora da ONG Casa de Lua, que tinha uma proposta artística, política e acolhimento, e foi lá que fundei o Clube da Escrita Para Mulheres, em 2015. Acho que sempre precisamos pensar nas coisas com um olhar voltado para o coletivo, porque nada é só individual. Digo sempre que toda literatura é política, quer saiba disso ou não; então é importante que saibamos do potencial político do que escrevemos e como crescemos quando lutamos juntas para que os absurdos e nojeiras do mercado editorial mudem.

 

Olhares – Fale um pouco sobre o Clube de Escrita para Mulheres e como ele funciona.

Jarid – Eu criei o Clube da Escrita Para Mulheres em 2015 e minha intenção sempre foi juntar mulheres que escrevem, ou desejam começar a escrever, para que a gente pudesse trocar apoio, dicar, ler umas às outras, ajudar, possibilitar meios de publicação e discutir sobre as questões que envolvem a literatura e o mercado editorial. O Clube sempre foi gratuito, aberto para mulheres de todas as idades e estilos de escrita, e dele já tivemos resultados incríveis. Uma das participantes, a Dani Costa Russo, publicou seu primeiro romance independente no ano passado. Por dois anos, eu levei o Clube sozinha, mas agora nos tornamos um coletivo. Nossa proposta é fazer eventos e criar ainda mais ações de apoio para mulheres escritoras. Muita coisa maravilhosa vem por aí. Por enquanto, temos nos reunido quinzenalmente para os encontros de escrita; nesses encontros, a gente produz literatura, faz exercícios, lê e troca opiniões. É sempre revigorante. Quem quiser participar, basta seguir nossa página no Facebook – Clube da Escrita para Mulheres – porque lá anunciamos as datas dos encontros.

 

Olhares – Na sua opinião, qual as maiores dificuldades enfrentadas pelas mulheres para escrever e publicar seus trabalhos no Brasil?

Jarid – O machismo e o racismo são as maiores dificuldades, porque eles levantam todas as outras que vêm em seguida. Se você não tem um sobrenome “especial”, se já não tem “contatos”, se já não é alguém com dinheiro, com amigos nos lugares certos, isso tudo bota mil barreiras. As pessoas que estão trabalhando nas editoras, prêmios, livrarias e eventos literários são responsáveis por esse quadro, porque insistem no machismo e no racismo, premiam e convidam apenas homens, publicam apenas homens (nesse mês de setembro, por exemplo, uma grande editora brasileira tem uns 20 livros lançados por homens e apenas um escrito por uma mulher). Quando convidam mulheres, chamam para falar do que é ser mulher no meio literário, mas não convidam para discutir técnica, poesia, personagens, criação, sei lá, qualquer outra coisa. A gente precisa falar disso insistente e assertivamente, sempre, porque se não for sob pressão, as coisas realmente não mudam.

 

Olhares – Como você acredita que o seu trabalho pode contribuir para o empoderamento das mulheres?

Jarid – Sempre encarei meu trabalho com muita consciência do quanto ele é político. Não só porque escrevo protagonistas mulheres e negras, mas porque sou uma protagonista mulher, negra, caririense. Os lugares que ocupo são lugares que raramente se abrem para mulheres como eu, então a minha cara é um espelho para outras. Eu trabalho absurdamente muito para construir o que construí até agora, insisto muito, porque eu sei que isso é maior do que eu. É algo que vai além da minha carreira, das minhas palavras. É coletivo. E eu não posso perder isso de vista, porque quando eu era adolescente, se eu tivesse conhecido uma escritora parecida comigo, muita coisa teria sido diferente e menos dolorida. Então faço questão de criar ações coletivas, de insistir no Clube da Escrita, de falar abertamente e politicamente sobre as questões do  mercado editorial. É um propósito que envolve contar as histórias que não puderam ser contadas, dizer as palavras que nem sempre são ditas. Pesado, mas recompensador.

O Olhares Podcast acredita que, assim como Jarid Arraes, é possível trazer novos pontos de vista sobre as mulheres que ajudaram na construção cultural deste país e, também, para as que hoje se mobilizam para serem exemplos para as novas gerações.

Jarid Arraes é autora de 60 cordéis e 2 livros. Em 2015 ela lançou As Lendas de Dandara, e neste ano, lançou Heroínas Negras em 15 Cordéis – e um deles será sorteado na campanha #LeiaMaisBr.

Conheça mais sobre sua obra aqui.

 

Esse artigo foi motivado pela Campanha #LeiaNovosBr, é uma campanha criada pela Domenica [Leitor Cabuloso] e Basso [Covil de Livros] para apresentar novas e novos escritores nacionais para o grande público, da qual o Olhares Podcast também faz parte.

Nesse mês de Setembro, dezenas de podcasts e canais vão lançar indicações e resenhas de livros que você precisa ler! Então, se você quer conhecer novos autores e sair do mainstream, procure pela hashtag #LeiaNovosBr e descubra muita gente boa que está escrevendo atualmente em nosso país!