Olhares Podcast | O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale)
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O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale)

Hoje começa a Coluna quinzenal Clube do Livro Feminista, onde discutiremos livros com a temática ou o recorte feminista. Acesse e conheça um pouco mais.

 

uma canção popular (séc. XIX- XX):
uma mulher incomoda
é interditada
levada para o depósito
das mulheres que incomodam
loucas louquinhas
tantãs da cabeça
ataduras banhos frios
descargas elétricas
são porcas permanentes
mas como descobrem os maridos
enriquecidos subitamente
as porcas loucas trancafiadas
são muito convenientes
interna, enterra
(Angélica Freitas)

Em “O Conto da Aia” as mulheres sofrem restrição em seus direitos, não por estarem loucas, mas sim pelo seu valor enquanto “reprodutoras” – para mulheres mais velhas ou idosas, que já não têm esse valor reprodutivo, são reservados os papéis sociais de ama ou esposa.
“O Conto de Aia” é um romance da escritora canadense Margaret Atwood. Margaret não gosta de ser chamada de escritora de ficção científica, pois afirma que tudo que escreve é baseado na história dos direitos das mulheres, e diz que se inspirou na época da Inglaterra vitoriana para criar o livro, de meados do século XIX ao início do século XX.

Capa do livro O conto da aia
No romance, houve uma ruptura da ordem social na região anteriormente conhecida como os EUA e agora há uma teocracia no poder, que baseia toda a sua política no antigo testamento bíblico. A narradora do livro, que não conhecemos o nome, diz que tudo aconteceu de maneira gradativa: primeiro as mulheres foram demitidas, depois foram proibidas ter contas nos bancos, sendo todo o seu dinheiro passado para seus maridos, e finalmente são proibidas de sair de casa.
Então as mulheres jovens, ainda em idade que poderiam ter filhos, foram recrutadas e treinadas pelas tias, as líderes religiosas, e se tornam Aias de comandantes do novo regime. Conhecemos a narradora apenas pelo codinome de Offred – “of Fred”, nome do patriarca da família a qual ela foi designada. A rotina da protagonista é basicamente ficar em casa e uma vez por mês cumprir o seu dever na Cerimônia, só saindo para fazer compras e acompanhada por outra aia, para sua “proteção”.
É interessante notar como, no livro, quem protege, vigia, “educa” e submete as Aias são outras mulheres, como as esposas, as amas, as empregadas domésticas, as cozinheiras e as tias. Alguma semelhança com a vida? Em nosso mundo, também muitas mulheres vigiam as outras, confiantes de ganhar ou manter supostos privilégios que teriam sobre “as outras, as prostitutas, as vadias, as degeneradas”.
Assim funciona e se reproduz o machismo através dos séculos. Não me entendam mal, obviamente quem mantém a estrutura machista são os homens. Mas será que eles seriam também sucedidos se não fosse estimulada a competição feminina? Já não é hora de percebermos que nos manter no lugar que foi a nós designado pelo machismo é reforçar essa estrutura?
No livro, tudo o que Offred faz é vigiado e controlado, desde o que ela come até o seu modo de vestir e o que ela pode ou não pode fazer.  E Naomi Wolf já disse que “dietas são o mais poderoso sedativo que existe” e que “uma população passivamente insana pode ser controlada”. Não por acaso, Offred questiona sua sanidade várias vezes durante o livro.
Uma vez por mês, ela é obrigada manter relações sexuais com o chefe da família, a Cerimônia, a fim de que possa ficar grávida e ter um filho que possa garantir a continuidade do regime. Esses reiterados abusos sexuais são presenciados e encorajados pela esposa, uma antiga líder religiosa e celebridade televisiva chamada Serena Joy, a quem agora foi reservado somente o papel de esposa. Ela deve manter seus braços sustentando Offred durante os estupros, e o faz cravando as unhas nela.
Offred não tem direito a contato físico fora desses momentos; a ela não é reservada nenhuma intimidade e a consumação do estupro deve ser sempre da forma mais incômoda possível. Não há nenhuma preparação para o ato, nada de beijos ou carícias, ou qualquer coisa que remotamente lembre que ela é uma humana, uma mulher com vontade própria.
Como Offred é uma narradora em primeira pessoa, lemos os seus pensamentos e seu debate interior com a sua consciência, procurando se proteger desses traumas. Offred se pergunta se realmente é estupro, já que ela se dirige para o quarto e se deita naquela cama todo o mês. Porém, há consentimento quando não temos nenhuma escolha a não ser fugir ou morrer?

Saiba mais em Jah! #28 – The Handmaid’s Tale by É Pau, É Pedra

 

Ligia Lila é colunista do Olhares Podcast. Leitora voraz, também é host, pauteira e xoxo mídia voluntária do podcast colaborativo É Pau É pedra.