Olhares Podcast | Outros jeitos de usar a boca
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Outros jeitos de usar a boca

“Eu nunca fui tímida, fui silenciada.”
(Monique Evelle)

Há apenas uma semana começaria esse texto dizendo que, apesar da quase unanimidade no meu círculo de amizades, Outros jeitos de usar a boca não me pegou, exceto por um ou dois poemas. Ocorre que, relendo o livro para escrever essa coluna, ele me tocou de modo diferente da primeira leitura.
Quando li pela primeira vez, o poema abaixo me fez fechar o livro. Estava em uma longa fase complicada no trabalho e ler este poema foi como levar um choque. Recordei na terapia quantas vezes havia me sentido silenciada e como tudo parecia sem solução à época.
Por sorte, posso apenas imaginar como quem está ou esteve em um relacionamento abusivo se sentiria ao ler este poema. Em mim, que já sofri bullying e estava passando por assédio moral à época, foi como ter levado um tapa.
Provavelmente por ter sido impactada de forma tão intensa este poema, não prestei tanta atenção aos outros. O livro ficou fechado por semanas até eu conseguir abri-lo de novo. Fiz uma leitura apressada do restante e saí dele com a impressão de que só este tinha me tocado de maneira significativa.
Ao reler, percebi que toda a primeira parte do livro é dolorosa de ler. A cada poema a gente se identifica ou lembra de uma mulher próxima a nós que tenha passado por algo que os temas dos poemas retratam: estupro, violência doméstica, abandono paterno, silenciamento.

“você pregava
minhas pernas
no chão
para depois pedir
que eu parasse em pé.”

É muito difícil, sendo mulher, não se identificar com esses versos. Quantos mulheres podemos reconhecer nesses versos, quantos feminicídios lemos todo dia nos jornais? O machismo mata mulheres todos os dias. O abuso psicológico pode até não matar, mas humilha, diminui, gera transtornos psíquicos e silenciamento.
Mas mesmo em meio ao capítulo da dor Rupi Kaur encontra força, mesmo em meio à dor ela resiste. No meu poema favorito ela declama:

“você me diz para ficar quieta porque
minhas opiniões me deixam menos bonita
mas não fui feita com um incêndio não barriga
para que pudessem me apagar
não fui feita com leveza na língua
para que fosse fácil de engolir
fui feita pesada
metade lâmina metade seda
difícil de esquecer e não tão fácil
de entender”

Após o capítulo da dor, vem o amor. Neste capítulo Rupi fala sobre sexualidade, sobre autoestima, sobre superar os abusos e aprender a confiar de novo em outra pessoa, fala sobre se desnudar e deixar outra pessoa verdadeiramente te conhecer. E então, fechando o capítulo, um poema sobre o desencanto, as brigas, as cobranças, as traições, a tensão que antecede uma possível violência que não chega a ocorrer e o sexo de reconciliação.
No capítulo da ruptura, a raiva, a mágoa, a saudade, a obsessão com o ex, a competição feminina, as recaídas, tudo aquilo que queremos esconder quando terminamos um relacionamento. Embora sejam sentimentos muito humanos, este foi o capítulo que menos falou comigo. Particularmente, é um capítulo que no aspecto formal me parece mais fraco em relação aos outros. Poucos poemas me chamaram a atenção.
A cura não melhorou a impressão deixada pelo capítulo da ruptura. Apesar de um dos temas do capítulo ser a sororidade, me parece que a maior parte dos poemas são feitos de frases feitas e auto ajuda. Mas neste mesmo capítulo Rupi responde às críticas, mandando um recado aos jovens poetas:

“sua arte
não é a quantidade pessoas
que gostam do seu trabalho
sua arte
é
o que o seu coração acha do seu trabalho
o que sua alma acha do seu trabalho
é a honestidade
que você tem consigo
e você nunca deve
trocar honestidade
por identificação”

 

– a todos vocês jovens poetas

Ligia Lila é colunista do Olhares Podcast. Leitora voraz, também é host, pauteira e xoxo mídia voluntária do podcast colaborativo É Pau É pedra