Olhares Podcast | Entrevista: Aline Valek, escritora e ilustradora.
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Aline Valek

Entrevista: Aline Valek, escritora e ilustradora.

Aproveitando o gancho da Campanha #LeiaNovosBr, nós do Olhares gostaríamos de dar uma nova dica: uma escritora brasileira de uma sensibilidade enorme que acaba de lançar seu primeiro romance. Estamos falando de Aline Valek, escritora ilustradora. Colunista no site da Carta Capital, também publica artigos no Medium. Escreve contos, já publicados em coletâneas e revistas, tendo publicado, em 2014 e 2015, as obras Hipersonia Crônica e Pequenas Tiranias, respectivamente. Seu primeiro romance, As águas-vivas não sabem de si, foi publicado pelo Fantástica, selo da Editora Rocco, em 2016.

Aqui ela nos conta um pouco mais sobre sua trajetória e pontos de vista sobre o processo criativo e como é ser uma escritora independente nos dias de hoje.

Uma história sobre mergulhar na solidão e ao mesmo tempo se cercar das vozes que pulsam no oceano. Uma história que convida a suspender o fôlego e a ouvir. Uma história que lança a inquietante dúvida: se as águas-vivas não sabem de si, sobre o que sabem então?”
(Trecho – As águas-vivas não sabem de si – Aline Valek)

Olhares – Quando você se identificou como escritora? O que você tem produzido hoje?

Aline – ​Eu nunca pensei “ah, quero ser escritora um dia”. Eu jurava que seria quadrinista. Desde criança até a adolescência o que eu sabia fazer mesmo era desenhar. Criava personagens e desenhava minhas próprias histórias em quad​rinhos. Eu já escrevia, mas só porque eu precisava de diálogos e histórias para os meus desenhos. É engraçado, mas o que me motivou a escrever, na verdade, foi ilustrar.
Em certo momento da minha vida, descobri que o que eu queria mesmo era contar histórias. E eu fazia isso muito melhor escrevendo do que desenhando. Mas não foi bem eu que me defini como escritora. O meu trabalho, gradualmente, foi me definindo.
Depois de uma trajetória dedicada à escrita, acabei voltando à ilustração. Tenho produzido uma zine mensal chamada Bobagens Imperdíveis, que por 3 anos foi a newsletter onde eu compartilhava com meus leitores histórias inventadas e opiniões sobre os mais variados assuntos. Nessa transição do digital para o papel, encontrei o espaço para experimentar na escrita, mas também vi a necessidade de voltar a ilustrar, afinal, a zine precisa de uma capa, precisa de desenhos pra não ser só texto corrido, né? A zine me possibilitou até voltar a fazer quadrinhos, veja só!
A zine também é um espaço onde trabalho com ficção, além dos contos e do romance no qual estou trabalhando no momento. E ainda possuo uma newsletter, onde continuo a escrever sobre tudo o que me interessa ou me incomoda. Escrever na internet é uma atividade que me acompanha há muito tempo e, por mais que eu mude de formato (de blog para newsletter, por exemplo), será algo que sempre vou arranjar um jeito de continuar fazendo, pelo menos enquanto houver alguém interessado em ler.

Olhares – Você acredita que o mercado literário é mais difícil para mulheres? Por que?

Aline – Escrever é difícil, ponto. Ser mulher escritora é mais difícil, mas porque ser mulher na sociedade atual, não importa a circunstância, é mais difícil do que ser homem. Mas acredito que o mercado literário é difícil especialmente porque a literatura é uma profissão altamente elitizada. Não é só uma questão de desigualdade de gênero, mas sobretudo social.
Com raras exceções, escritor ganha pouquíssimo dinheiro em relação ao tamanho da dedicação que o trabalho exige. Como os filhos e filhas da classe trabalhadora podem se interessar por uma carreira assim, se não tem outros meios para se sustentar? Ser escritor é mais possível para quem já tem recursos.Aí dá pra entender porque é uma área tão dominada por homens brancos. Porque historicamente sempre tiveram o privilégio – estabilidade financeira, acesso à cultura, liberdade de expressão – para exercer o ofício. Já a mulher é historicamente mais vulnerável financeiramente, sem falar de todas as obrigações impostas ao gênero, que nos afastaram da possibilidade de trabalhar com a literatura e empurraram tantas mulheres que seriam escritoras brilhantes em direção à pobreza e à invisibilidade.

Olhares – Qual a maior barreira para as escritoras e escritores ao retratar personagens femininas?​ ​Para uma personagem feminina ser destacável ela tem que necessariamente ser uma personagem forte?

Aline – Não importa se é uma personagem feminina ou masculina, a construção de um bom personagem passa pela verdade.​ É muito difícil construir personagens que convençam, que façam o leitor sentir algo. Mas, quando o autor não consegue, é bem fácil reparar, mais fácil de notar do que um zíper aberto ou alface no dente.
Quando um personagem não passa de um estereótipo (como o herói ou heroína que salva o dia porque é muito foda e nada o parece desafiar), soa forçado, falso. Fica difícil se identificar, sobretudo porque pessoas são contraditórias, têm fraquezas, nunca são uma coisa só.
Personagens construídos com base em estereótipos costumam ser cascas vazias, achatados, superficiais, inverossímeis. Esses personagens não são pessoas, mas clichês. A gente não sofre, se apaixona ou se emociona por um clichê. Temos sentimentos por pessoas.
Acho que a principal barreira é tentar se ater a um ideal de pessoa na hora de escrever um personagem. E às vezes a gente fica nessa de tentar construir mulheres fodonas, ou personagens muito corretas onde a gente projeta o que achamos que é certo transmitir. Mas a ficção serve também para buscar a verdade sobre nós e sobre o mundo onde vivemos. E entrar com essa profundidade no ser humano não é um trabalho limpinho. Tem muita coisa contraditória, feia, suja, mas que pode sim ser usada para contar histórias que emocionem ou transformem.
É um problema criar personagens que representem aquilo que você acha que as pessoas deveriam ser. Às vezes a gente precisa contar a história de personagens com os quais a gente não concorda, ou mesmo aqueles que a gente não entende direito. Mas escreve pra tentar entender. Faz parte.

Olhares – No seu livro, As Águas-Vivas não sabem de si, você trata muito sobre a solidão e a observação de si sobre o outro. O que te motivou a criar esse universo?

Aline – O oceano sempre me fascinou, apesar de eu só ter visto o mar de perto depois de adulta. Já quis seguir carreira como bióloga, mas meu ascendente em humanas acabou me carregando para os lados da escrita. O interesse e maravilhamento pela ciência sempre me seguiram, e é um tema sobre o qual escrevo bastante. Na verdade, escrever um livro sobre o oceano foi um grande pretexto para eu me dedicar ao tema e pesquisar sobre esse universo que, apesar de ficar no nosso planeta, parece ser um mundo completamente diferente.O oceano também era o ambiente perfeito para refletir mais sobre a solidão, já que eu jogaria cinco personagens numa situação extrema de isolamento. É um assunto sobre o qual eu reflito muito. Existe um filósofo chamado Alan Watts que diz que o indivíduo e o universo são inseparáveis; quando olhamos para fora de nós, para a natureza acontecendo, estamos olhando, na verdade, para nós mesmos, para uma parte do nosso “eu” que segue independente do nosso ego. É um conceito que também está no budismo. Já estamos conectados, uns aos outros, e a todo o resto, mas criamos barreiras que nos impedem de ter consciência disso. Essa reflexão, que atravessa todo o livro, é um lembrete biológico de que somos o próprio Universo, não algo separado dele, apesar de termos criado uma sociedade baseada em separações.

Aline Valek é escritora e ilustradora. Para saber um pouco mais a respeito de sua obra e da zine mensal Bobagens Imperdíveis, acesse o site da autora.

Esse artigo foi motivado pela Campanha #LeiaNovosBr, é uma campanha criada pela Domenica [Leitor Cabuloso] e Basso [Covil de Livros] para apresentar novas e novos escritores nacionais para o grande público, da qual o Olhares Podcast também faz parte.

Nesse mês de Setembro, dezenas de podcasts e canais vão lançar indicações e resenhas de livros que você precisa ler! Então, se você quer conhecer novos autores e sair do mainstream, procure pela hashtag #LeiaNovosBr e descubra muita gente boa que está escrevendo atualmente em nosso país!