Olhares Podcast | Quem foi Mary Wollstonecraft
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Quem foi Mary Wollstonecraft

Quando eu paro em frente ao retrato de Mary Wollstonecraft na National Portrait Galley em Londres, um dos pontos do meu tour guiado (chamado ‘Mulheres Incríveis e Seus Legados’), eu costumo falar para as pessoas que não é adequado afirmar que Mary era uma mulher a frente de seu tempo. Penso que, ao destacarmos os feitos de Mary em relação ao que era esperado de uma mulher no século 18, estamos ‘desculpando’ a sociedade por não ter um pensamento tão progressista e avançado como o dela. Mary era a exceção, mas não deveria ser assim. Hoje lembramos dela quase como uma mártir, uma heroína, o que não seria o caso se a sociedade tivesse avançado de acordo com os ideais dela e daqueles que compartilhavam dos mesmos ideais. Sim, tenho um conforto em tê-la como heroína, mas ao mesmo tempo um desconforto em pensar que as heroínas surgem justamente porque não alcançamos (e estamos longe de alcançar) nosso objetivo de equidade.

Mary Wollstonecraft estaria ‘a frente de seu tempo’ ainda hoje. Não comia carne, não arrumava o cabelo e não vestia roupas de acordo com os padrões de beleza, teve sua primeira filha sem estar casada, e acreditava que as mulheres – pasmem – deveriam ter os mesmo direitos que os homens. O que ela deixou bem claro no livro ‘A Vindication of the Rights of Woman’ (Reivindicação dos Direitos da Mulher), publicado em 1791, onde está a célebre frase ‘não quero que as mulheres tenham poderes sobre os homens, mas sim sobre si mesmas’. Nessa obra prima feminista, Mary já constrói a teoria que Simone de Beauvoir aperfeiçoa na metade do século 20, de que ‘não se nasce mulher, torna-se’.

Desde criança Mary percebeu que seu gênero não lhe trazia benefícios. Apesar de ter nascido em uma família de classe média, não recebeu educação formal – diferente de seu irmão mais velho. Ela percebe que educação é essencial para sua emancipação e decidi aprender por conta própria o que conseguisse, inclusive idiomas. Depois de tentar trabalhar em profissões ‘femininas’ – como bordadeira, governanta e professora – ela percebe que sua paixão e vocação é a escrita. Mas não quer escrever romances (o que era esperado de mulheres que escreviam), e seu primeiro livro é uma crítica a educação que inferioriza meninas. Ela foi também uma das fundadoras do jornal Analytical Review, cujo foco era em política, filosofia, literature e história natural, juntamente com outros intelectuais e pensadores da época.

Inspirada pelos ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade da Revolução Francesa (ela viajou para Paris e testemunhou de perto os acontecimentos), em 1790 ela publica o manifesto ‘A Vindication of the Rights of Men’ (Reivindicação dos Direitos dos Homens), no qual critica normas socio econômicas, fala sobre direitos humandos e política internacional. Porém, ela logo percebe que os ideais da Revolução Francesa nada fazem pela emancipação feminina, e é então que – em apenas três meses – ela escreve ‘A Vindication of the Rights of Woman’.

Sua primeira filha, fruto do relacionamento com o Gilber Imlay, o qual conhece durante sua visita a França, nasce em 1794. Imlay não reciproca o afeto de Mary e ela tenta se suicidar duas vezes: a primeira quando ele se recusa a retornar para Londres junto com ela, e a segunda quando ela descobre que ele tem outra mulher. Mary finalmente encerra o relacionamento abusivo em 1796, e em seguida começa a se relacionar com William Godwin.

Em 1797 Mary e Godwin se casam e a filha do casal – Mary Shelley, precursora da ficção científica e autora de Frankenstein – nasce dia 30 de agosto. 11 dias depois, Mary Wollstonecraft more em decorrência de complicações no parto. No ano seguinte, Godwin publica uma biografia sobre ela, revelando seu estilo de vida ‘a frente de seu tempo’, e acaba enterrando a reputação de Mary. Esquecida e apagada da história por quase 2 séculos, seu legado e relembrado apenas no século 20, quando escritoras como Virginia Woolf e Simone de Beauvoir utilizam sua escrita como fonte de inspiração e estudos.

Hoje, os retratos de Mary Wollstonecraft e Mary Shelley estão frente a frente na sala 18 da National Portrait Gallery. É uma espécie de reunião de família, já que William Godwin também está por ali. Fico imaginando como teria sido a vida de Mary se ela tivesse vivido além de seus 38 anos (idade que alcanço em menos de 3 meses). Eu me sinto profudamente grata pela sua coragem, e também envergonhada por não termos conseguido vencer desigualdades que Mary já apontava quando viveu.

Tenho certeza de que ela não esperava se tornar uma heroína no século 21. Que as heroínas do futuro sejam as mesmas de agora!

Heloísa Righetto é co-fundadora da Conexão Feminista, autora de dois guias de Londres, e idealizadora (e guia!) do tour Mulheres Incríveis e Seus Legados, também em Londres. Fazendo mestrado em Gênero, Mídia e Cultura pela Goldsmiths, University of London e escritora freelancer de feminismo e viagens