Olhares Podcast | Amamentação: Você sabe como apoiar?
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Semana Nacional do Aleitamento Materno

Amamentação: Você sabe como apoiar?

Estamos na Semana Mundial da Amamentação. De novo, precisamos falar sobre isso. Um direito fundamental das crianças e das mulheres, ainda suprimido pela noção de que o corpo da mulher não pode cumprir um papel fisiológico tão básico: alimentar suas crias.

Não é incomum ler notícias de mães que foram impedidas ou constrangidas por amamentar seus bebês em público. A mais recente relatava uma jovem mãe que foi acusada de atentado ao pudor, enquanto amamentava o filho recém-nascido. Agora, me respondam: por que amamentar é um ato de perversão, mas mostrar os seios numa festa pública, não?
Porque, no Brasil, o corpo da mulher é recreação. Não é saúde, não é alimento, não é respeitado. É para o deleite alheio. Que ousadia é essa dessas mulheres modernas de acharem que podem exibir seus peitos sem que seja para sensualizar?

Governo tem que ser parceiro, não opressor.
A Organização Mundial de Saúde preconiza que o leite materno seja o principal alimento de todo ser humano até os seis meses de vida. Aleitamento exclusivo, é como chamamos. Aí vem um governo capitalista americano e se opõe à OMS.
Em maio deste ano o governo dos Estados Unidos do Trump posicionou-se contrário às resoluções que incentivam a amamentação em plena Assembleia Mundial da Saúde. Indo contra todos os estudos e evidências científicas que garantem a qualidade do leite materno, ameaçou cortar relações com os países que promovessem a amamentação.
Nem entrarei no mérito político e de lobby comercial da questão toda, mas que mundo é esse em que os interesses comerciais de um país se sobrepõem à promoção de saúde básica? Sim, minha gente, amamentar é questão de saúde básica, primária. Nem todas as mulheres conseguem amamentar. Mas o que falta, na maioria das vezes, é apoio, informação, orientação e aquele estímulo por parte da família, da assistência à saúde, do governo.
No Brasil, as políticas públicas até existem, mas sofrem para funcionar. Aquela velha história de sucateamento do SUS, por exemplo. As campanhas são boas, mas ainda precisam ser mais eficientes. Precisamos, como sociedade, colaborar, divulgando boas informações, demonstrando apoio e – essencialmente – protegendo as mulheres no momento em que elas se sentirem vulneráveis.

Amamentar é direito garantido.
A lei brasileira garante o direito à amamentação em público. Garante também o direito a intervalos regulares no trabalho, após a licença maternidade, por seis meses a um ano, para que a mãe amamente o bebê ou ordenhe seu leite. E não é para ordenhar o leite à mão, num banheiro, e descartar a produção não, viu? Ela tem direito a um espaço reservado e tranquilo, a uma geladeira para armazenar e a não ser incomodada enquanto está neste momento.
Portanto, ninguém pode ser constrangida em público por alimentar um bebê com os próprios seios. É como quando você vai ali na cantina da rodoviária e compra um pão de queijo porque está com fome, antes do ônibus chegar. Entende? Fome não espera. A diferença crucial é que você, pessoa adulta, consegue raciocinar e entender que a comida vai vir depois, que a fome passa. O bebê, não. A amamentação é garantida pela CLT e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, considerada uma grande arma contra a mortalidade infantil, reduzindo os índices deste tipo de morte em todo o mundo.

Negras sofrem mais opressão.
No Brasil, a amamentação é um privilégio. Temos leis, mas não temos conscientização. Temos vontade, mas não temos apoio e informação. E, principalmente, apesar de sermos considerados referência em amamentação, com um dos melhores sistemas de bancos de leite do mundo, faltam políticas públicas que garantam o exercício deste direito.
Para as mulheres negras, a situação é ainda mais complicada. Estatisticamente, crianças negras desmamam mais cedo ou nem são amamentadas. Isto porque as mães precisam voltar ao trabalho, ou são rechaçadas em seu direito à informação e suporte. A ironia é que, lá atrás na nossa história, eram as negras que supriam a necessidade do leite materno para os filhos brancos e tinham seus próprios bebês pretos arrancados dos seus braços para cumprir esta função.

Denuncie, apoie, informe-se
A rede de bancos de leite brasileira é vasta e funcional. Dúvidas? Procure um banco na sua cidade. É um serviço gratuito e especializado. Não se deixe intimidar: se quiser amamentar em público, amamente. É direito seu. Percebeu uma mãe sendo constrangida, ou olhares de reprovação? Vai lá, senta ao lado dela, encara com ela essa tarefa. O nome disso é rede de apoio. Ou sororidade. Se precisar denunciar, vá até uma delegacia e faça um boletim de ocorrência, de preferência em alguma Delegacia da Mulher. Os estabelecimentos podem pagar multa por impedirem uma mãe de amamentar seu bebê. A coisa chegou ao nível inacreditável e você foi fisicamente impedida de alimentar seu bebê? Liga para o 180. É o número brasileiro que acolhe denúncias de violência contra a mulher.
Amamentar não é intuitivo, não é sempre fácil, não é um mar de rosas. Mas, para enfrentar tudo isso, precisamos ao menos dar as garantias básicas para que as mulheres possam exercer esse direito em paz.

Patrícia Cordeiro – Jornalista, doula, mãe e feminista.