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A onda negra brasileira tem força própria

8 de junho de 2020

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A onda negra brasileira tem força própria

Por que devemos parar de exaltar movimentos externos ou passar a dar atenção aos nossos somente após algo acontecer nos EUA? O Movimento #BlackLivesMatters aqui no Brasil se chama #VidasNegrasImportam

Para que os movimentos brasileiros não se percam em um debate estadunidense, eu gostaria de trazer aqui algumas reivindicações da população negra nos últimos anos para que possam perceber que a luta da população negra não é de hoje. Agora se fala mais que antes que #VidasNegrasImportam, já que pessoas postam fotos pretas no instagram, há a demonstração que o silêncio foi quebrado a nível nacional, quando a regra era o contrário, a interrupção de vidas faz parte do cotidiano normalizado do Brasil.

“O silêncio sobre nossos corpos continua sendo uma arma”, disse Winnie Bueno (TEDx, 2019)

A morte de George Loyd está desencadeando a segunda semana de protestos nos EUA, e somente agora as propostas de mudança começam a aparecer, mas aqui não podemos dizer o mesmo. Coincidentemente, temos 1 (de vários) George Loyd aqui no Brasil. O nome dele era Pedro Henrique, de 19 anos, que foi imobilizado por um segurança de supermercado e morreu asfixiado. Por que não falamos de Pedro Henrique? Aqui, os veículos de comunicação surfam na onda, enquanto o Congresso, o Executivo, o Judiciário ainda silencia pautas das pessoas negras e não dá força aos movimentos sociais que lutam diariamente pelas reivindicações de povos negros, indígenas, quilombolas e romani (ciganos).

Sim, se estamos falando de luta antirracista, temos que incluir os povos indígenas, quilombolas e romani (ciganos) nesta reivindicação.

Ontem, no Brasil, uma série de manifestações em diversas cidades uniam a luta antirracista à luta antifascista. Assisti ontem e hoje ao noticiário para saber o que falariam e a impressão que tive foi que não estão sabendo do que se trata. Noticiam as faixas de #VidasNegrasImportam como se fosse um reflexo a George Floyd quando no Brasil, meninos e meninas não respiram há muito tempo, não vão para a escola em paz , não podem fazer compras, distribuir marmitas na comunidade, não podem brincar em suas casas em segurança, não podem acompanhar suas mães no trabalho,  dentre outras atividades.

O Movimento Mães de Maio nasceu na época da ditadura, e aqui no Brasil ganhou força e expressividade pós-ditadura a partir de maio de 2006, para criar uma rede de apoio às famílias das vítimas assassinadas sumariamente, das quais 400 eram jovens negros, afro-indígena-desencendes e pobres, todos executados sumariamente. Este mesmo movimento foi retratado no Filme/Documentário Auto de Resistência

Foto: Jornal O Dia.

Parece que é regra a omissão ou distorção pela mídia dos movimentos sociais antirracistas.

Somente a título de exemplo, a Frente Negra Brasileira foi criada em 1931, o CLADEM (Comitê Latino Americano e Caribe pela Defesa dos Direitos da Mulher) existe desde 1987 a ONG Criola desde 1992, e trabalha pela defesa e promoção dos direitos da população negra, a AMSK, uma das associações que preservam a história do povo romani, existe desde 2009. O Brasil já possui mais de 200 ONGs focadas nas causas das populações negras, conforme apurado pela pesquisa do Observatório das Favelas em parceria com o Itaú Cultural, e mais de 20 instituições voltadas à preservação da história e vida dos povos indígenas, o que demonstra que a luta antirracista não é de hoje.

Você já ouviu falar de alguma dessas organizações?

O genocídio cultural e histórico dos povos indígenas acontece desde 1500. Recentemente, estamos falando de território, desmatamento em massa, invasão de terras e garimpo, contaminação por COVID que ameaça povos das mais diversas partes do pais, especialmente povos amazônicos que contam com uma política pública de saúde precária (para não dizer ausente) e o quanto o desmatamento está diretamente ligado ao aumento de COVID-19 no Xingu, por exemplo.

Vale lembrar a fala de Denise Carreira, pela revista SUR, quando fala do lugar do sujeito branco na luta antirracista

“O racismo é compreendido aqui como fenômeno que desumaniza, que nega a dignidade a pessoas e a grupos sociais com base na cor da pele, no cabelo, em outras características físicas ou da origem regional ou cultural. Fenômeno que se ancora em crenças, valores e ações e que sistematiza, perpetua, se renova continuamente e marca estruturalmente a distribuição desigual de acesso a oportunidades, a recursos, a informações, a atenção e a poder no cotidiano, na sociedade, nas instituições e nas políticas de Estado.”

E nesse momento eu gostaria de fazer uma pequena provocação a partir de dados importantes: estamos falando de vidas negras, mas e as mulheres?

Reivindicações que aparecem em menor número, ou em reivindicações específicas de gênero, mas que deveriam ser reivindicações de todos, todas e todes. Num governo que tem sangue nas mãos, ainda temos muito o que falar sobre as mulheres negras que tem mais chances de morrer por covid-19, as que ganham menos e sofrem mais com o desemprego, que são mães solo, com as empregadas domésticas, especialmente as   que têm que trabalhar em tempos de pandemia, sobre as mulheres que mais sofrem violência obstétrica, mortes por abortos, violência doméstica e feminicídio.

Todas essas mulheres carregam na pele uma mesma característica, ser negra, em um Brasil evidentemente racista e machista.

Foto da capa: Weliton Dias – Mídia Ninja

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Apresentadora e produtora do Olhares Podcast, é também mestranda em Direitos Humanos, pesquisadora e consultora em gênero e diversidade, palestrante e advogada.